Urna à Prova
Caderno de notas sobre uma urna verificável

Uma urna que qualquer pessoa pode conferir

Hoje, quem vota confia que a urna registrou, guardou e somou o voto direito. Este caderno descreve uma urna em que cada uma dessas etapas deixa uma prova pública. O eleitor confere o próprio voto, o fiscal confere a seção, e qualquer pessoa confere a soma inteira. A confiança deixa de depender de uma única instituição e passa a se apoiar em provas que todos podem conferir.

Tudo aqui é explicado sem fórmulas. Quem quiser as fórmulas e as provas encontra na página Técnico. Quem quiser apertar os botões vai a Tente você mesmo, onde roda uma eleição inteira de exemplo no próprio navegador. As dúvidas mais comuns estão no fim desta página, em Dúvidas frequentes.

a b K7QD-3XMA-9PRT c d dois de três e f
Tav. I. O caminho de um voto.
  • a O eleitor escolhe na urna, sozinho na cabine.
  • b A urna tranca o voto numa caixa que ninguém abre sozinho.
  • c O eleitor leva um código. O código não diz em quem votou.
  • d A caixa vai para um mural público, que todos podem copiar.
  • e Só a soma das caixas é aberta, e só com dois de três guardiões.
  • f Qualquer pessoa refaz a conta e compara com o resultado.

Três perguntas que todo eleitor tem

Uma eleição pode dar errado em três lugares. A urna pode gravar algo diferente do que o eleitor escolheu. O voto gravado pode sumir ou mudar no caminho. E a soma pode estar errada. A urna deste caderno responde a cada pergunta com uma prova que qualquer pessoa consegue checar: eleitores, partidos, universidades e a própria Justiça Eleitoral.

Sumário

  1. IA caixa trancada que somacomo contar votos sem abrir nenhum
  2. IIA chave repartidapor que ninguém sozinho consegue abrir
  3. IIIProvar sem mostrarcomo garantir que cada caixa tem um voto só
  4. IVTestar ou depositarcomo pegar uma urna que troca votos
  5. VO código de rastreamentouma corrente da qual não se tira nenhum elo
  6. VIO mural públicoum livro que não se pode rasgar
  7. VIIOs papéis da seçãozerésima, pré-boletim e boletim de urna
  8. VIIIO embaralhadordesfazer a ordem em que os votos chegaram
  9. IXO verificadordezesseis conferências que qualquer um roda
  10. XO programa da urnacomo saber que a urna roda o programa publicado
  11. XIOnde ainda há problemaso que esta urna não resolve
  12. ?Dúvidas frequentesrespostas curtas
I

A caixa trancada que soma

Como contar votos sem abrir nenhum?

Imagine que cada voto vai para uma caixinha trancada. Para cada candidato, a caixa guarda um número: 1 se o eleitor votou nele, 0 se não votou. Quem olha a caixa por fora vê só um amontoado de números que parecem sorteados. Uma caixa com 1 e uma caixa com 0 parecem iguais.

Essas caixas têm uma propriedade rara. Dá para juntar duas caixas trancadas e obter uma terceira caixa, também trancada, que guarda a soma das duas. Ninguém precisou abrir nada. Juntando as caixas de todos os eleitores de uma seção, sai uma única caixa com o total de votos de cada candidato.

No fim do dia, abre-se só essa caixa do total. Os votos individuais nunca são abertos. A urna também não guarda nenhuma contagem por candidato: ela nem sabe, depois que o eleitor sai, quantos votos cada um teve.

Experimente: somar sem abrir

Vote algumas vezes. Cada voto vira uma caixa com dois números que parecem aleatórios. Depois, junte as caixas e abra só o total. As contas são de verdade, com números pequenos.

    Nenhuma caixa ainda.

    Se o total só sai quando alguém abre, quem tem a chave? Se fosse uma pessoa só, ela poderia abrir cada caixa individual e ver o voto de cada eleitor. O próximo capítulo resolve isso.

    II

    A chave repartida

    Por que ninguém sozinho consegue abrir?

    A chave que abre as caixas nunca existe inteira em lugar nenhum. Ela nasce repartida entre alguns guardiões, que são organizações diferentes. Nos exemplos desta página são três, chamados de guardião 1, 2 e 3. Num caso real seriam, por exemplo, o TSE, a OAB, uma universidade e partidos de lados opostos.

    A regra é "dois de três": quaisquer dois guardiões, juntos, conseguem abrir uma caixa. Um sozinho não consegue nada, nem adivinhar. A ideia vem de um fato que se aprende na escola: por dois pontos passa uma única reta, mas por um ponto passam infinitas.

    Escondemos o segredo como a altura em que uma reta corta o eixo vertical. Cada guardião recebe um ponto dessa reta. Com dois pontos, desenha-se a reta e lê-se o segredo. Com um ponto só, qualquer altura é possível, e todas com a mesma chance.

    Experimente: a reta escondida

    Escolha quais guardiões aparecem. Com um só, veja quantas retas cabem. Com dois, a reta aparece.

    E quem inventou a reta? Ninguém. Cada guardião sorteia a sua própria reta secreta e manda um ponto dela, em envelope lacrado, a cada um dos outros. A reta da eleição é a soma de todas. Para descobri-la, seria preciso que todos os guardiões revelassem as suas. Isto se chama cerimônia de chaves, e tudo o que os guardiões publicam nela vai para o mural, com provas de que ninguém trapaceou.

    Os guardiões também nunca juntam os pedaços num lugar só. Cada um aplica o seu pedaço à caixa do total, em casa, e publica o resultado parcial com uma prova de que usou o pedaço certo. Juntar os resultados parciais revela o total. A chave inteira continua sem existir.

    III

    Provar sem mostrar

    Como garantir que cada caixa tem um voto só, sem abrir a caixa?

    As caixas trancadas trazem um perigo. Se ninguém vê o que tem dentro, uma urna desonesta poderia trancar o número 500 numa caixa do candidato B. Ao somar, o candidato B ganharia 500 votos de uma vez, e ninguém perceberia.

    Então cada caixa precisa vir com uma prova de que guarda 0 ou 1. Parece pedir o impossível: convencer alguém de que a caixa tem 0 ou 1 sem contar qual dos dois. Este capítulo mostra como se faz isso, em três passos. Primeiro, como provar que se conhece um segredo sem contá-lo. Depois, como provar "isto ou aquilo" sem dizer qual. Por fim, como trocar o juiz por uma conta que qualquer um refaz.

    Primeiro passo: a caverna com porta mágica

    Imagine uma caverna em forma de anel. A entrada fica embaixo, e dela saem dois corredores, o da esquerda e o da direita, que se encontram lá no fundo numa porta de pedra. A porta só abre com uma senha. A urna diz que sabe a senha, e um juiz quer ter certeza sem ouvir a senha.

    Eles fazem assim. O juiz espera do lado de fora. A urna entra e escolhe um corredor, sem que o juiz veja qual. Então o juiz vai até a entrada e grita: "saia pela esquerda!", ou "pela direita!", ao acaso. Quem sabe a senha sai sempre pelo lado pedido: se estiver no outro corredor, abre a porta e passa. Quem não sabe só acerta se, por sorte, já estava no corredor certo, ou seja, metade das vezes.

    Uma rodada não prova muito. Vinte rodadas seguidas sem erro, sim: a chance de um impostor acertar vinte vezes por sorte é de uma em um milhão (meio vezes meio, vinte vezes).

    E o juiz não aprende a senha. Tudo o que ele viu foi a urna saindo pelo lado que ele mesmo pediu. Repare no ponto mais importante: fingir é fácil quando se conhece a pergunta antes. Se o impostor soubesse que o juiz ia gritar "esquerda", bastaria entrar pela esquerda. Por isso um vídeo da prova não convence ninguém de fora, porque dá para gravar as rodadas combinando o lado antes. Só convence quem sorteou a pergunta depois que a urna já tinha entrado. A prova vale para o juiz e não carrega nenhum segredo junto.

    esq. dir. b a caverna do 0 esq. dir. caverna do 1 c
    Tav. II. As duas cavernas. a Cada caverna tem uma entrada e dois corredores. b No fundo, uma porta que só abre com a senha daquela caverna. A urna só tem a senha da caverna do número que trancou na caixa. c O juiz joga uma moeda depois que a urna já entrou nas duas cavernas.

    Segundo passo: duas cavernas, uma senha

    Agora a ligação com a caixa. Ao trancar o voto, a urna usou um número secreto, uma espécie de senha da caixa. A matemática da tranca tem uma propriedade curiosa: se a caixa guarda 0, esse número abre a porta de uma "caverna do 0"; se guarda 1, abre a de uma "caverna do 1". Uma caixa com 500 tem senha que não abre nenhuma das duas. Provar "a caixa tem 0 ou 1" é, portanto, provar "eu sei a senha de pelo menos uma das duas cavernas", sem dizer de qual.

    A urna entra nas duas cavernas ao mesmo tempo, e a regra muda assim:

    1. A urna entra num corredor de cada caverna, sem que o juiz veja.
    2. O juiz joga uma moeda: dá iguais ou diferentes.
    3. A urna anuncia por que lado vai sair em cada caverna, obedecendo à moeda: se deu "iguais", o mesmo lado nas duas; se deu "diferentes", lados opostos.
    4. O juiz confere que ela sai pelo lado anunciado nas duas cavernas.

    Veja como a urna honesta, com um 1 na caixa, passa sempre. Ela sabe a senha só da caverna do 1. Então, na caverna do 0, ela entra num corredor qualquer e decide desde já que vai anunciar aquele lado: lá ela sai por onde entrou, sem precisar de senha. Quando a moeda cai, o lado da caverna do 1 fica obrigado pela regra (igual ou oposto ao da caverna do 0). Pode ser que não seja o corredor em que ela está, mas ali ela tem a senha e atravessa a porta.

    A urna trapaceira, com 500 na caixa, não tem senha nenhuma. Precisa sair, nas duas cavernas, pelo corredor em que já está. Os dois lados ficaram decididos antes da moeda, e eles são iguais ou diferentes. A moeda concorda com isso só metade das vezes. Em vinte rodadas, ela é pega quase com certeza.

    E o juiz descobre qual caverna era a verdadeira? Não. Ele vê a urna sair pelo lado anunciado nas duas, em toda rodada, seja a caixa 0 ou 1. A caverna "fingida" e a verdadeira deixam rastros idênticos. O truque inteiro está numa liberdade só: a urna pode escolher uma das respostas antes da moeda, mas não as duas. Com uma escolhida, ela engana a caverna cuja senha não tem. A outra fica presa à moeda e exige a senha de verdade.

    Experimente: tente passar na prova

    Escolha o que a urna trancou na caixa e rode vinte rodadas. Cada linha mostra o que o juiz vê. Uma urna honesta nunca erra. A trapaceira erra por volta de metade das rodadas.

      Terceiro passo: sem juiz, com um sorteio que ninguém controla

      Numa eleição não dá para ter um juiz jogando moeda para cada caixa de cada eleitor. E, como vimos, uma prova gravada não convence quem não sorteou a pergunta. A saída tem duas partes.

      Os lados viram números enormes. Em vez de esquerda ou direita, a "pergunta" é um número entre zero e um número de 76 algarismos. Acertar por sorte deixa de ser meio e passa a ser uma chance em ≈ 1075. Uma rodada basta.

      A moeda vem de uma impressão digital. A urna primeiro escreve, em números, "por onde entrou" em cada caverna. A pergunta é então calculada por uma função de hash aplicada a tudo o que está escrito: a caixa, as entradas nas cavernas, a eleição, a cédula. O hash funciona como um sorteio que todo mundo pode refazer e ninguém consegue prever: mudar uma vírgula na entrada muda a pergunta por completo. Para a urna trapaceira acertar, teria de tentar entradas diferentes até o hash cair do jeito que lhe convém. Mesmo com todos os computadores do mundo trabalhando juntos, isso levaria bilhões de anos. Na conta exata, levaria muito mais do que a idade do universo.

      O resultado é um punhado de números anexado a cada caixa. Qualquer pessoa, depois, refaz o hash, confere as duas "saídas" e soma as perguntas, em milésimos de segundo. Ninguém precisa ter estado lá.

      Um voto por cargo, nem mais nem menos

      Falta uma coisa. Cada caixa ter 0 ou 1 não impede a urna de pôr 1 em dois candidatos a presidente. Por isso a urna também prova que a soma das caixas de um cargo é exatamente 1, com o mesmo tipo de caverna: ela conhece a senha da caixa-soma, que é a soma das senhas das caixas. Branco e nulo são caixas como as outras, então também entram na conta. Se cada caixa tem 0 ou 1 e a soma é 1, só sobra uma possibilidade: exatamente uma opção marcada. No senado, com duas vagas, a soma tem de ser 2.

      O mesmo tipo de prova aparece em todo lugar da apuração. Os guardiões provam que geraram a chave direito. Cada guardião prova que usou o seu pedaço verdadeiro ao abrir o total. O embaralhador prova que não trocou nenhum voto (capítulo VIII). Uma prova que não confere é rejeitada, e quem a assinou fica exposto.

      O que nenhuma dessas provas garante é que o 1 está no candidato que você digitou. Uma urna adulterada pode trancar o candidato B quando você escolheu o candidato A, com provas perfeitas de que a caixa tem um voto só. Para isso existe o próximo capítulo.

      IV

      Testar ou depositar

      Como pegar uma urna que troca votos?

      As provas do capítulo anterior garantem que a caixa tem um voto válido. Elas não garantem que é o voto que você escolheu. Uma urna adulterada poderia trancar o candidato B quando você digitou o candidato A, com uma prova perfeita de que a caixa tem um voto só.

      A defesa é a do cozinheiro que não sabe qual prato o cliente vai provar. Depois que você escolhe, a urna tranca o voto e mostra um código na tela. Só então ela pergunta: depositar ou auditar?

      A urna precisa trancar o voto antes de saber se você vai auditar. Se trapacear, arrisca ser pega toda vez que alguém audita. Com o recibo, qualquer celular ou computador refaz a caixa a partir do segredo revelado e confere se ela é igual à que está no mural. A própria urna nunca pode ser quem diz "está tudo certo", porque uma urna desonesta diria isso de qualquer jeito.

      Experimente: a chance de escapar

      Uma urna troca uma parte dos votos que recebe. Cada eleitor audita com uma certa chance. Qual a chance de nenhuma troca ser auditada?

      A escolha auditada se torna pública e fica no mural logo antes do voto que você depositou em seguida. Isso, por si só, não revela o seu voto: ninguém sabe se você auditou a mesma escolha que depois depositou. Você pode auditar qualquer escolha, e o voto depositado continua trancado.

      Mas há uma tensão. O jeito natural de conferir o seu voto é auditar a sua escolha de verdade, e uma urna esperta poderia trapacear só contra um candidato; auditar outra escolha não testa esse caso. Quem audita a escolha real deixa uma pista, não uma prova: alguém que saiba quem estava na cabine naquela hora poderia apostar que o voto depositado é igual. Por isso a especificação prefere que as auditorias sejam feitas por fiscais, em sessões só de teste ao longo do dia, sem eleitor real envolvido. A seção Onde ainda há problemas volta a isso.

      V

      O código de rastreamento

      Uma corrente da qual não se tira nenhum elo.

      O papel que você leva para casa traz só um código, algo como K7QD-3XMA-9PRT-2BHW-6YCN. Não é um comprovante do voto: não tem nome de candidato, número nem horário. O código é uma impressão digital da sua caixa trancada, e quem o lê não descobre em quem você votou. Serve para você procurar a sua caixa no mural e ver que ela está lá, igual.

      Há um detalhe: cada código é calculado a partir da caixa e do código anterior da mesma urna. Os votos da urna ficam presos uns aos outros, como os elos de uma corrente. Tirar um voto do meio, trocar a ordem ou mexer em uma caixa muda todos os códigos que vêm depois, e os eleitores que já levaram os seus comprovantes notam a diferença.

      Experimente: mexa numa caixa do meio

      Cada linha é um voto trancado (aqui escrito às claras para facilitar). Mude o segundo e veja os códigos.

        Como cada código depende de tudo o que veio antes na mesma urna, dois eleitores nunca recebem o mesmo código. Isso fecha uma trapaça esperta: a urna dar a dois eleitores com o mesmo voto a mesma caixa, e usar a caixa que sobrou para um voto inventado.

        VI

        O mural público

        Um livro que não se pode rasgar.

        Tudo o que a eleição produz vai para um mural público: as regras da eleição, a cerimônia de chaves, cada caixa de cada urna, cada prova, cada boletim e o resultado. O mural só aceita acréscimos. Nada pode ser apagado ou trocado.

        Quem garante? O mural é organizado como uma árvore genealógica de impressões digitais. Cada folha é uma entrada; cada galho guarda a impressão digital dos dois galhos de baixo; a raiz, lá em cima, resume o mural inteiro em 32 letras e números. O mural assina essa raiz com data e tamanho.

        raiz assinada manifesto sua caixa pacote resultado a b
        Tav. III. A árvore do mural. a Para provar que a sua caixa está no mural, basta o caminho da folha até a raiz: um punhado de impressões digitais, mesmo que o mural tenha milhões de entradas. b Mudar qualquer folha muda a raiz. Duas raízes assinadas para o mesmo tamanho de mural são prova de que ele mostrou versões diferentes a pessoas diferentes.

        Isso protege contra um mural desonesto que mostra uma versão a você e outra ao fiscal. Por isso existem espelhos: cópias do mural mantidas por várias instituições, como partidos, universidades e a própria Justiça Eleitoral. Os espelhos comparam as raízes assinadas. O aplicativo de conferência do eleitor confere a raiz com mais de um espelho.

        VII

        Os papéis da seção

        Zerésima, pré-boletim e boletim de urna.

        Os brasileiros já conhecem dois papéis da seção eleitoral: a zerésima, impressa antes do primeiro voto para mostrar que a urna está vazia, e o boletim de urna (BU), impresso no fim com os votos de cada candidato. A urna deste caderno mantém os dois, com uma diferença.

        Zerésima, de manhã
        Mostra a urna, a seção, o programa que está rodando e um número de abertura. Mesários e fiscais assinam e guardam uma cópia. Ela prova que a urna começou vazia, e é o primeiro elo da corrente do capítulo V.
        Pré-boletim, no fim da votação
        A urna não sabe quantos votos cada candidato teve, porque os votos estão trancados. Então ela imprime o número de eleitores que assinaram o caderno de votação, quantas cédulas foram depositadas e auditadas, e uma impressão digital da soma trancada. Fiscais assinam e guardam cópia antes do envio.
        Boletim de urna, depois da apuração
        Os guardiões abrem a soma trancada daquela seção. O BU traz os votos de cada candidato, brancos e nulos, e a mesma impressão digital do pré-boletim. O fiscal compara as duas com o papel que guardou.

        O pré-boletim fecha uma brecha antiga: depois que o fiscal tem a impressão digital no papel, ninguém pode trocar o pacote da urna no caminho até o mural sem que a diferença apareça. E uma seção que abriu de manhã e não mandou pacote fica listada como ausente.

        VIII

        O embaralhador

        Desfazer a ordem em que os votos chegaram.

        Às vezes não basta somar. Num cargo com muitos candidatos, ou em regras que precisam ver cada cédula inteira, os votos têm de ser abertos um por um. Abrir na ordem em que chegaram seria revelar quem votou em quem, porque a ordem do mural segue a fila da seção.

        A solução é embaralhar antes de abrir, como um maço de cartas que passa de mão em mão. Cada guardião embaralha o maço inteiro e troca a "tranca" de cada caixa por outra, de modo que ninguém reconheça a caixa depois. Basta que um dos embaralhadores seja honesto para que a ordem final não tenha relação com a fila.

        E se um embaralhador trocar uma carta por outra, em vez de só embaralhar? Cada um publica uma prova de que a saída é exatamente a entrada em outra ordem, sem nenhuma caixa nova e sem nenhuma a menos. A prova não revela a ordem.

        IX

        O verificador

        Dezesseis conferências que qualquer um roda.

        No fim, qualquer pessoa pode baixar o mural inteiro e rodar um programa verificador. Ele não precisa de senha nem de chave. Refaz cada conta e cada prova a partir do que está publicado, em dezesseis passos: confere a árvore do mural, as regras, a cerimônia de chaves, cada pacote de cada urna, se faltou alguma seção, cada voto auditado, cada soma, cada embaralhamento, cada abertura, cada boletim, a contagem, a distribuição de cadeiras e o resultado final.

        O último passo é diferente: um relatório de independência. Ele lista quem são os guardiões e de que bloco, quais espelhos existem, e quais seções não tiveram nenhum fiscal assinando a zerésima ou o pré-boletim. Ou seja, ele mostra com clareza onde a conferência ficou incompleta, para que todos saibam onde olhar.

        A especificação é pública. Um partido, uma universidade ou um estudante pode escrever o seu próprio verificador, em outra linguagem, e chegar ao mesmo veredito. É isso que tira a necessidade de confiar.

        X

        O programa da urna

        Como saber que a urna roda o programa descrito aqui, e não outro?

        É a pergunta certa a fazer, porque tudo o que este caderno descreve acontece dentro de um programa. A resposta tem duas partes: o que acontece se o programa for outro, e como se confere que é o programa certo.

        Um programa adulterado não muda a contagem sem ser pego

        Suponha o pior: alguém troca o programa de uma urna por uma versão adulterada. Para mudar o resultado, essa versão teria de fazer uma destas coisas, e cada uma é pega por uma conferência que não roda na urna:

        Ou seja, a contagem não depende de confiar no programa da urna. Ela depende das provas e de que eleitores e fiscais façam as conferências.

        O sigilo, esse sim, depende do programa. A urna vê o voto enquanto o eleitor escolhe, e um programa adulterado poderia guardar ou vazar escolhas. Por isso é preciso conferir também que o programa da urna é o programa publicado. Isso é feito em cinco camadas.

        a código aberto 3FA2…91C0 3FA2…91C0 b duas compilações, o mesmo resultado 3 de 5 assinaturas, de blocos diferentes c ZERÉSIMA 3FA2…91C0 d e a urna declara e o chip confirma
        Tav. IV. Do código aberto à urna.
        • a O código do programa é público.
        • b Grupos independentes o compilam e obtêm o mesmo arquivo, com a mesma impressão digital.
        • c A versão só vale com assinaturas de vários blocos; nenhum bloco aprova sozinho.
        • d A zerésima e o pacote da urna trazem a impressão digital do programa que rodou.
        • e Um chip de segurança mede o programa por conta própria e assina essa medição.

        As cinco camadas

        1. Código aberto e compilação reproduzível. O programa de computador nasce de um texto, o código-fonte, que é transformado no arquivo que a urna executa. A compilação é reproduzível quando qualquer pessoa que fizer essa transformação a partir do mesmo código obtém exatamente o mesmo arquivo, byte a byte, e portanto a mesma impressão digital. É como uma receita tão precisa que dois cozinheiros diferentes produzem bolos idênticos até o último grão. Uma versão só é publicada depois que pelo menos dois grupos independentes chegam à mesma impressão digital.

        2. Assinaturas de vários blocos. Uma versão só é aprovada com um número mínimo de assinaturas de organizações diferentes: partidos, universidades, a OAB, a Justiça Eleitoral. Assim como os guardiões da chave, nenhum bloco tem assinaturas suficientes para aprovar sozinho. Quem assina declara que compilou o código e chegou à mesma impressão digital.

        3. Um registro público de versões. Todas as versões e assinaturas vão para um registro que funciona como o mural do capítulo VI: só aceita acréscimos e é copiado por várias instituições. Não pode existir uma versão "secreta", aprovada sem que todos vejam. Depois da abertura da votação, a lista de versões aprovadas fica congelada.

        4. A urna declara o programa, e um chip confirma. A zerésima e o pacote de cada urna trazem a impressão digital do programa que rodou, e o verificador rejeita pacotes de programas não aprovados. Mas um programa adulterado poderia mentir sobre a própria impressão digital. Por isso a urna tem um chip de segurança que mede o programa no momento em que ele é carregado, por conta própria, e assina essa medição com uma chave que o programa não alcança. A assinatura inclui um número sorteado pelo terminal do mesário na abertura, e outra é feita no encerramento, presa ao último código do dia. Assim ela não pode ser preparada antes. E, como o chip conta quantas vezes a urna foi reiniciada, trocar o programa no meio da votação e voltar ao original deixaria marca.

        5. Perícia por sorteio. Depois da eleição, um sorteio público escolhe urnas para inspeção. Peritos de várias instituições comparam o programa e o diário de cada urna sorteada com o que foi aprovado e publicado.

        Até onde isso vai

        As três primeiras camadas garantem que o programa aprovado é exatamente o código que todos podem ler, e que não há outro. A quarta liga cada urna a esse programa. O elo mais fraco é o próprio chip: confiar na medição é confiar no fabricante do chip e na guarda física das urnas. A especificação define o formato da atestação, mas, nesta versão, ainda não a torna obrigatória nem fixa as regras de conferência do chip. Isso está listado na seção seguinte.

        XI

        Onde ainda há problemas

        O que esta urna não resolve, dito com franqueza.

        Nenhum sistema de votação é perfeito, e desconfie de quem diz o contrário. Estes são os limites conhecidos desta urna. Os mais graves vêm primeiro.

        A página Técnico traz cada um desses limites com a referência exata da especificação.

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        Dúvidas frequentes

        Com o código do comprovante, alguém descobre em quem eu votei?

        Não. O código é a impressão digital de uma caixa trancada. Ele mostra que a sua caixa está no mural, não o que tem dentro. Nem você consegue provar a outra pessoa em quem votou: a urna apaga o segredo que usou para trancar assim que você deposita.

        Então dá para vender o voto mostrando o comprovante?

        Não. O comprovante não diz o voto, e não há nada que você possa levar da cabine que prove a escolha. O único papel que mostra uma escolha é o recibo de auditoria, e aquele voto foi descartado. Ele não vale nada para um comprador.

        Isso é o voto impresso?

        Não. O voto impresso coloca uma cópia em papel numa urna física, para recontagem manual. Aqui a prova é matemática e pública: o eleitor confere o próprio voto no mural, e qualquer pessoa refaz a soma num computador. Uma coisa não impede a outra, mas são ideias diferentes.

        Alguém consegue mudar o resultado depois da votação?

        Não sem ser pego, seja um invasor, um técnico ou um guardião. O resultado é recalculado por qualquer verificador a partir do mural, e os espelhos mantidos por várias instituições impedem que o mural mostre versões diferentes. A chave das caixas está com guardiões de vários blocos, e nenhum bloco abre nada sozinho. O resultado oficial continua sendo assinado e publicado, e qualquer pessoa pode refazer a conta e chegar ao mesmo número.

        E se um guardião sumir ou se recusar a abrir?

        Com a regra "dois de três", um guardião pode faltar e a apuração segue. Se faltarem mais do que isso, a apuração para. Ela não é falsificada, só atrasa. Na escolha do número de guardiões, há um equilíbrio entre resistir a faltas e resistir a conluios.

        Um guardião pode abrir só o meu voto, e não o total?

        Sozinho, não. Ele tem só um pedaço da chave. E os guardiões só aceitam abrir caixas que o próprio mural mostra que são somas de uma seção grande o bastante, ou o resultado de um embaralhamento. Pedir para abrir uma caixa individual fica registrado.

        O que acontece com o voto que eu audito?

        Ele é descartado e nunca é contado. A urna revela o que trancou e você vota de novo, normalmente. O recibo de auditoria pode ir para casa e ser conferido num celular ou computador. A escolha auditada fica pública, mas ninguém sabe se ela é igual ao voto que você depositou depois.

        Eu preciso entender matemática para conferir?

        Não. Você digita o código do comprovante num aplicativo de conferência, de preferência feito por um partido ou universidade, e ele diz se a sua caixa está no mural. A matemática fica com os programas verificadores, que qualquer pessoa pode rodar ou escrever.

        Como ficam os votos brancos e nulos?

        São opções da cédula como qualquer outra, trancadas da mesma forma e contadas à parte. Como manda a lei brasileira, nenhum dos dois entra nos votos válidos. Para presidente, ganha no primeiro turno quem passar de metade dos válidos. A simulação de Tente você mesmo aplica essa regra.

        Isso já foi usado em alguma eleição?

        As ideias, sim. O Helios, de 2008, usa caixas que somam e provas como as daqui em eleições de universidades e associações. O ElectionGuard, da Microsoft, foi usado em eleições-piloto nos Estados Unidos. Esta proposta em particular é um rascunho de pesquisa, adaptado às regras brasileiras, e nunca foi usada numa eleição real.

        A apuração demora mais?

        Um pouco. As somas de cada seção podem ser abertas na noite da eleição, assim que os pacotes chegam. O que custa mais é gerar e conferir as provas: na simulação de Tente você mesmo, uma eleição de exemplo com dez seções é apurada e verificada em segundos, mas uma eleição nacional, com centenas de milhares de seções, exige computadores dedicados e provas agrupadas.

        E se faltar luz ou a urna quebrar no meio da votação?

        A urna grava um diário encadeado, como a corrente do capítulo V, em duas mídias. Ao religar, ela relê o diário e continua de onde parou. Se a urna quebrar de vez, uma urna de reserva assume a seção, e os votos da urna quebrada são recuperados da mídia e importados no pré-boletim da reserva.

        Sem instalar nada, direto no navegador

        Tente você mesmo

        Rode uma eleição inteira, com a criptografia de verdade, guiado passo a passo. Leva uns dez minutos.

        1. Gere a chave com os guardiões e abra a votação.
        2. Vote na urna, audite uma cédula e confira o recibo.
        3. Apure, veja os boletins e rode o verificador.
        4. Sabote a eleição e veja quem pega a fraude.